Manaus, 01/07/2022

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ELEITORES AMERICANOS VÃO DECIDIR SE ACABAM COM BORDÉIS LEGAIS CENTENÁRIOS

ELEITORES AMERICANOS VÃO DECIDIR SE ACABAM COM BORDÉIS LEGAIS CENTENÁRIOS
26/09/2018 15h58

G1 – Há bordeis no Estado americano de Nevada desde a época da corrida do ouro, mas em um de seus 16 condados, isso pode estar prestes a mudar. Os eleitores de Lyon terão a chance de acabar com a prostituição legal em novembro, numa consulta popular que coincidirá com as eleições legislativas. A repórter da BBC Lucy Ash se encontrou com uma prostituta veterana de Nevada para entender os argumentos contra e a favor.

A prostituta Air Force Amy (Amy da Força Aérea, em tradução livre) caminha de salto à beira da piscina em formato de feijão para me mostrar a academia onde as mulheres podem se exercitar nos intervalos entre clientes. Ela mostra a churrasqueira e a Jacuzzi e abre a porta da garagem, mostrando uns quadriciclos empoeirados.

“Temos tudo que precisamos aqui, até pôneis, no estábulo, que fica ali atrás”, diz ela. “Eu não monto porque acho muito arriscado. Preciso que meu corpo esteja bem”, acrescenta ela, com uma risada rouca.

Saímos do sol de rachar do deserto e entramos num bar de luz baixa, onde uma placa neon que fica sobre o balcão diz “Bunny Ranch”. Há algumas meninas de lingerie e vestidinho sentadas no sofá de veludo velho com os olhos colados em laptops e celulares.

Esse é o bordel legal mais famoso entre os 21 que há na zona rural de Nevada. Atrás do bar tem um corredor que leva a dezenas de quartos, cada um ocupado por uma das prostitutas, que pagam um aluguel diário.

O Bunny Ranch fica num lugar vazio, onde há postos de gasolina, cassinos e lojas de arma. Fica no limite do condado de Lyon. A prostituição é ilegal em Carson City, a capital, que fica perto dali, e também em outras zonas urbanas.

Na estrada há placas com coelhos fazendo sexo.

Quando um cliente toca a campainha do portão, um sino lá dentro chama as prostitutas, que vão ao bar para se apresentar. Quando o cliente escolhe uma, eles vão para o quarto para negociar um preço. A vasta maioria deles são homens sozinhos, ainda que às vezes apareça um casal.

A mais premiada

A prostituta Air Force Amy ainda é, aos 53, umas das que mais ganham dinheiro lá, e diz que chega a receber meio milhão de dólares por ano. Imagens phtoshopadas dela quando era jovem decoram as paredes. Com seu cabelo louro platinado, um corpo violão e unhas vermelhas, ela parece uma estrela de novela dos anos 1980. Seu jeito de falar também me faz lembrar da sex symbol da Hollywood dos anos 1930 Mae West.

“Se sexo fosse esporte, eu teria várias medalhas de ouro”, diz ela. “Nasci com um talento incrível e adoro meu trabalho. Eu faço os programas com os caras, a gente se diverte, eles me pagam e levam a roupa suja com eles para casa!”

Ela reconhece que não tem, ela própria, uma vida familiar. “Por que me casar e deixar um homem triste quando posso fazer milhares ficarem felizes?”, diz ela, rindo.

A sua falta de entusiasmo pela vida em família é compreensível. Criada na zona rural do estado de Ohio, Amy se descreve como “uma jovem rebelde” que fugiu de casa aos 13. Na escola, ela deixava os meninos tirarem sua calcinha em troca do dinheiro que levavam para almoçar. Ela diz que consegue identificar um cara bêbado ou perigoso porque teve que aprender a fazer isso da forma mais difícil, vendendo sexo à beira da estrada para sobreviver.

Amy acabou conseguindo um bom emprego com a Força Aérea americana. No final dos anos 1980, ela estava nas Filipinas dando aula a soldados de como se defender numa floresta.

“Tem homens que não gostam de ver uma mulher que não é militar dando ordens”, diz ela. “Mas eu só estava tentando ensinar a eles como evitar que morressem.”

Amy conta que teve algumas experiências perturbadoras na Ásia que a deixaram com problemas de estresse pós-traumático e alcoolismo.

Depois que voltou aos EUA, deixou a Força Aérea e começou a trabalhar em bordeis conhecidos como “prisões de vagina”, nos quais as mulheres só podem deixar a casa depois de três semanas de trabalho.

Um dia conheceu Dennis Hof, dono do Bunny Ranch, que a convidou para trabalhar para ele. Ela diz que as mulheres têm liberdade para entrar e sair e que ele não as chama de funcionárias. Prefere se referir a elas como “contratantes independentes”.

O cafetão

Um pouco vulgar, careca e de olhos azuis, Hof é dono de um terço dos bordeis legais de Nevada, quatro deles no condado de Lyon. Na opinião dele, mulheres como Amy são exemplo de uma indústria moderna e vibrante.

“As meninas são mulheres de negócios, somos sócios”, diz ele, sentado no bar com a mão na cintura de uma prostituta. Essa, conhecida como Honey, tem seus 20 anos, idade que Amy tinha quando começou a trabalhar no ramo, há quase três décadas.

“A gente trabalha junto”, acrescenta. “A prostituição é um negócio imundo e cheio de drogas — até ser legalizada.”

O negócio

Os bordeis legais de Nevada estão em operação desde 1971. O que eram lugares discretos frequentados por caminhoneiros solitários se tornaram, nas mãos de Hof, uma indústria do século 21, com um toque de glamour de Hollywood e marketing ousado.

Em reuniões semanais chamadas de “hora de chá”, Hof passa a sua sabedoria comercial para as mulheres com quem trabalha. Como num escritório comum, os nomes das funcionárias do mês ficam expostos na parede. Algumas recebem elogios e presentes, de perfumaria a aparelhos eletrônicos, por terem atingido os maiores números de clientes.

O clima é um misto de conferência de vendas e retiro New Age. As mulheres, todas com caderninhos na mão, têm que bolar frases positivas, como “Tente ser um arco-íris na nuvem de alguém”.

Hof diz a elas o tempo todo para usar as redes sociais para conseguir mais clientes. “É das meninas que postam que eles gostam”, diz ele, com um charuto na boca. Metade de tudo que elas ganham vai para a casa. Em sua biografia The Art of the Pimp (A arte do cafetão), ele se gaba de lucrar bastante.

No entanto, ele acha que bordeis legais beneficiam a todos.

“As pessoas têm que entender que se eu fosse dono de quatro McDonald’s no país, pagaria $1,200 por ano em impostos,” diz. “Sou dono de quatro bordeis, pago meio milhão de dólares por ano de impostos. Isso é muito para uma região tão pequena quanto esta.”

Ele diz ainda que seu negócio traz $10 milhões por ano para a economia local ao empregar pessoal de limpeza, bartenders, cozinheiros, motoristas, médicos, cabelereiros e outros profissionais, e diz que a indústria do sexo incentiva o turismo no estado todo.

Na nossa primeira manhã no Bunny Ranch, três homens com roupa de motoqueiro tocaram a campainha. Eram turistas chineses. “Meus amigos ouviram falar deste lugar e não acreditaram quando souberam que era legal. A gente veio conhecer.”

Prostituta feliz?

Se esse tipo de turismo é vantajoso para o estado, no entanto, é um ponto de discussão. Alguns dizem que bordeis fazem todas as mulheres que moram por perto correrem mais risco de serem assediadas, que aumenta o risco de tráfico de mulheres e que afasta negócios “respeitáveis”.

Por ora, não parece que os bordeis tenham restringido o desenvolvimento econômico no norte do estado. A empresa automotiva Tesla construiu uma fábrica gigante de bateria de lítio ao custo de $5 bilhões a poucos quilômetros de um bordel legal no condado de Storey.

Mas críticos dizem que indústrias mais high-tech viriam se os bordeis não existissem e que elas seriam o futuro do estado. Eles também fazem objeções éticas.

Brenda Simpson, que faz parte de um comitê legislativo pelo fim do tráfico de mulheres e da prostituição, diz que é hora de parar de fechar os olhos para a questão.

“Antigamente trazer escravos da África também era uma coisa normal”, diz ela, num parque da capital. “Finalmente alguém criou coragem para dizer ‘Não, não vamos aceitar a escravidão’. Os bordeis são outro tipo de escravidão. Essas mulheres são escravas.”

O objetivo final de pessoas como ela é acabar com a prostituição legal em todo o estado. Lyon foi o único de 16 condados cujos moradores assinaram uma petição para fazer uma consulta popular sobre o fechamento de um bordel, mas se der certo, ela acha que outros condados seguirão o mesmo caminho.

O grupo dela lançou recentemente a campanha “Fechem o mercado de carnes”. Cartazes, folhetos e comerciais de TV mostram mulheres empacotadas em contêineres de plástico como carne de frango e cordeiro.

Melissa Holland, que tem um abrigo para mulheres que sofreram violência na cidade de Reno, também não compra a história da “prostituta feliz”.

Ela diz que sua organização ajudou muitas mulheres no estado a deixar a prostituição e achar outros empregos.

Ela cita um estudo sobre a indústria do sexo de Nevada feito por acadêmicos do estado da Califórnia que conclui que prostituição legal melhora as condições para os cafetões e os donos dos bordeis, mas não para as mulheres que trabalham neles. O estudo descreve um clima quase de culto em muitos bordeis legais, o que impede suas funcionárias de falarem francamente sobre os perigos que elas vivem, como uso de drogas e assédio sexual.

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