Manaus, 06/07/2022

Brasil

MILTON NASCIMENTO FAZ A FESTA DA VOZ AO RECICLAR CANÇÕES AUTORAIS EM EP

MILTON NASCIMENTO FAZ A FESTA DA VOZ AO RECICLAR CANÇÕES AUTORAIS EM EP
21/09/2018 17h00

Milton Nascimento é o único gigante da MPB da década de 1960 que tem investido basicamente em reciclagem da própria obra, em shows, sem apresentar sequer uma música inédita, como fez Caetano Veloso no corrente recital que faz com os três filhos pelo Brasil desde outubro de 2017.

Diferentemente dos contemporâneos Chico Buarque e Gilberto Gil, que renovaram os respectivos repertórios com recentes álbuns de músicas inéditas, Milton tem gravitado somente em torno do próprio cancioneiro, fonte de renovação da música brasileira por ter apresentado nos anos 1960 um universo musical até então inexplorado.

Nesse sentido, o EP A festa – disponível nas plataformas digitais via Universal Music a partir de hoje, 21 de setembro de 2018, e sem previsão de edição em CD – mantém estagnada a obra desse genial compositor de alma mineira e origem carioca.

Em contrapartida, o EP exala sopro de novidade no formato de voz & violão – o violão de Wilson Lopes, músico que vem dividindo o palco com Milton em recentes shows do cantor. Por incrível que possa soar em 2018, este formato acústico de voz e violão é inédito na discografia construída por Milton ao longo de 51 anos, geralmente com aparatos orquestrais.

Amparado pela beleza dos acordes tirados por Wilson Lopes no violão, Milton faz a festa da voz no disco. Divina, como já caracterizou Elis Regina (1945 – 1982), essa voz por vezes tem perdido potência e viço nas apresentações ao vivo de Milton. No EP gravado em estúdio, ela ainda resplandece e se ilumina quando o cantor tira vocais da cartola para encarar uma música já tão abordada quanto a fraterna Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1969).

Mesmo sem resistir a comparações com o canto do intérprete na áurea década de 1970, essa voz ainda tem o dom de atiçar emoções profundas no ouvinte. Das seis músicas do disco, a única que soa realmente frágil no confronto com registros anteriores é Beco do Mota (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1969), com a ressalva de que a lembrança da composição é importante pelo momento social do Brasil.

Em compensação, Cuitelinho (tema tradicional em adaptação de Paulo Vanzolini, 1974) tem a raiz caipira realçada no toque da viola em interpretação pungente que sintoniza o mesmo universo interiorano de O cio da terra (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1977), música que abre o EP.

Já Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant) pode até já ter ganhado gravações mais apoteóticas (embora a atual seja luminosa), mas se justifica no EP pela edição simultânea do clipe – o primeiro da música – gravado com atrizes como Camila Pitanga e Zezé Motta. Afinal, em tempos digitais, o apelo visual é decisivo no mercado da música.

De todo modo, Milton prescinde de apelos porque ainda é um senhor cantor, como comprova o bailado vocal do artista em A festa (Milton Nascimento, 2003), única letra até então inédita na feminina voz do cantor.

Lançada por Maria Rita há 15 anos, no primeiro álbum da filha de Elis Regina, A festa é a versão com letra de música desenvolvida por Milton com alardeada inspiração em La bamba, tema tradicional mexicano apresentado em 1958 no universo pop com letra de Ritchie Vallens (1949 – 1959) e reciclado por Milton trinta anos depois no álbum Miltons(1988).

A música flui divinamente na dança da voz. Violão à parte, o fato é que Milton Nascimento, quase aos 76 anos (a serem completados em outubro), ainda é capaz de fazer a festa da voz. (Cotação: * * * 1/2)

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