Manaus, 01/07/2022

Brasil

Pesquisadores investigam vírus sabiá, ressurgido no Brasil após 20 anos

Casos registrados tiveram como ponto em comum infecções ocorridas na zona rural.
Casos registrados tiveram como ponto em comum infecções ocorridas na zona rural.
22/06/2022 16h20

Pesquisadores da Universidade de São Paulo aprofundam as investigações sobre o vírus sabiá (SABV), causador da febre hemorrágica brasileira.

Os estudos conduzidos pelo Instituto de Medicina Tropical (IMT) e pelo Hospital das Clínicas, ambos da Faculdade de Medicina da USP, são realizados a partir do diagnóstico de dois casos de infecção em 2019.

Anteriormente, apenas quatro infecções desse tipo haviam sido detectadas no país, a última delas há mais de 20 anos. Os dois diagnósticos mais recentes foram realizados em meio a um surto de febre amarela na região Sudeste.

“Fizemos esse estudo durante a epidemia de febre amarela, então nos casos em que não conseguimos fechar o diagnóstico, fomos atrás de outros vírus. Para nossa surpresa, achamos esses dois casos, que são extremamente raros”, afirmou a médica Ana Catharina Nastri, da Divisão de Doenças Infecciosas do Hospital das Clínicas, em comunicado.

Segundo a pesquisadora, primeira autora do estudo orientado pela professora Ana S. Levin, do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias, os avanços na área de investigação de doenças, especialmente na microscopia eletrônica, permitiram um estudo mais aprofundado sobre o vírus sabiá (Brazillian mammarenavirus).

As novas informações sobre manifestações clínicas, exames de tecidos e órgãos e possibilidade de transmissão hospitalar foram publicadas na revista Travel Medicine and Infectious Disease.

Novos casos

Os dois novos casos detectados ocorreram nas cidades de Sorocaba e Assis, no interior de São Paulo. Os pacientes foram atendidos no Hospital das Clínicas com suspeita de caso grave de febre amarela.

O primeiro foi um homem de 52 anos que havia caminhado pela floresta na cidade de Eldorado (170 quilômetros ao Sul de São Paulo) e passou a apresentar sintomas como dor muscular, dor abdominal e tontura.

No dia seguinte, ele desenvolveu conjuntivite, sendo medicado em um hospital local e depois liberado. Quatro dias depois, foi internado novamente com febre alta e sonolência. Suspeitou-se de febre amarela e ele foi transferido para o Hospital das Clínicas.

Durante a internação, o quadro clínico foi agravado até ele ser transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dez dias após o início dos sintomas, com sangramento significativo, insuficiência renal, rebaixamento do nível de consciência e hipotensão, vindo a falecer dois dias depois.

O segundo caso é de um homem de 63 anos, trabalhador rural de Assis (440 quilômetros a Oeste de São Paulo), que apresentou febre, dor no corpo, náusea e prostração. Os sintomas pioraram e oito dias depois ele foi admitido no HC com queda do nível de consciência e insuficiência respiratória com necessidade de intubação. Uma disfunção no coração levou ao choque e à morte, 11 dias após o início dos sintomas.

O que apontam as análises
O diagnóstico da infecção foi realizado a partir de uma técnica que envolve o sequenciamento do material genético viral. Na análise das duas infecções, os pesquisadores identificaram sintomas análogos aos registrados nos casos da década de 90.

“A parte clínica é muito parecida com o que já havíamos visto antes e, entre os dois novos casos, a manifestação também foi muito similar”, diz Ana.

O estudo indica que em todos os casos houve um comprometimento significativo do fígado e de órgãos associados à produção de células de defesa, o que pode ter facilitado o surgimento de infecções secundárias, tornando o diagnóstico inicial mais complexo.

Os casos registrados tiveram como ponto em comum infecções ocorridas na zona rural. “Inferimos, baseados nos outros Mammarenavirus da América do Sul, que provavelmente a pessoa se contamina por inalação de partículas virais, talvez de fezes de roedores. Mas isso não está comprovado justamente porque temos pouquíssimos casos descritos”, diz Ana.

A médica ainda alerta que, justamente por se tratar de áreas rurais com menos recursos laboratoriais e de diagnóstico, alguns casos podem não ter sido identificados, dificultando um panorama completo da febre hemorrágica brasileira.

Os cientistas não encontraram infecções por transmissão hospitalar durante o rastreamento de contatos.

“Isso mostra que com as precauções habituais, como máscara, luva, óculos e avental, não houve transmissão, e nos deixa um pouco mais tranquilos em relação ao nosso vírus”, diz Ana. Ela ressalta, entretanto, que ainda não é possível cravar uma conclusão, devido à limitação dos casos avaliados.

Sobre o vírus sabiá

O nome do vírus faz referência ao bairro Sabiá, localizado no município de Cotia, na Grande São Paulo, onde suspeita-se que a primeira vítima tenha sido infectada.

Embora existam vários tipos de Mammarenavirus descritos em diferentes países da América do Sul, o vírus sabiá é característico do Brasil.

“Alguns desses vírus possuem o ciclo viral mais bem conhecidos, já o nosso vírus sabiá possui pouquíssimos dados. Ainda não sabemos qual é o seu reservatório na natureza, a forma de transmissão, e se existiria infecção através do contato inter-humano”, diz a médica.

Anteriormente ao estudo, apenas quatro infecções por SABV haviam sido registradas no país. Os pesquisadores estimam que uma delas ocorreu na cidade de Cotia, em 1990, e outra, na cidade do Espírito Santo do Pinhal, em 1999, ambas localizadas na zona rural do estado de São Paulo.

Nos dois casos, a doença atingiu trabalhadores rurais que morreram devido às complicações da febre hemorrágica. As outras duas infecções, que não evoluíram para a morte, ocorreram em profissionais de laboratório que podem ter sido infectados durante a manipulação do vírus.

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