REPRESENTANTES DO AMAZONAS E RORAIMA PARTICIPAM NO VATICANO DE SEMINÁRIO QUE TRATA SOBRE TRÁFICO HUMANO

Socióloga Márcia de Oliveira, professora na Universidade Federal de Roraima Foto: Cebs Brasil

A Igreja Católica tornou-se uma das principais vozes na luta contra o tráfico de seres humanos, um flagelo que vitima muitos migrantes e refugiados. Para avançar a reflexão sobre esse assunto, a Seção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, organizou de 9 a 11 de abril, em Roma, uma conferência internacional que tem estudado o documento “Orientações Pastorais sobre o tráfico de pessoas”, que junto com outro documento que fala sobre “Ensinamentos do Papa Francisco sobre Migrantes, Refugiados e tráfico de Pessoas” foram apresentados em 17 de Janeiro de 2019 na Sala de Imprensa da Santa Sé.

O banner da conferência, onde aparece a pergunta, “Onde estão seu irmão e irmã escravizados?”, formulada em 2013 pelo Papa Francisco, e um desejo, “libertar aqueles injustamente retidos”, destaca a importância do momento, um aspecto sublinhado por alguns participantes.

Segundo Alberto Ares, do Instituto Universitário de Migrações da Universidade de Comillas, em Madri, Espanha, a importância da conferência entende-se “a partir do momento em que nós participamos em muitas redes que trabalham em nome das vítimas de tráfico”. Sua presença na reunião responde a um desejo “para compartilhar as melhores práticas que temos vindo a fazer desde a faculdade e do instituto no campo do tráfico de pessoas, e valorizar essas investigações e o trabalho coordenado de Igreja que pode ajudar a erradicar este flagelo social”.

A socióloga Márcia de Oliveira, professora na Universidade Federal de Roraima, que ao longo de muitos anos vem estudando esta questão da migração e tráfico humano dentro do mundo acadêmico, tem insistido que a discussão tem sido muito boa e ampla, com a presença de mais de 30 países e representantes dos cinco continentes.

Rose Bertoldo, representante da Rede Um Grito pela Vida.

Na mesma direção, Rose Bertoldo, representante da Rede Um Grito pela Vida, sublinhou “a importância que tem a participação da vida religiosa consagrada, de padres, de lideranças eclesiais que são comprometidas no enfrentamento a este crime”. Tudo isso, de acordo com a religiosa, “reafirma a importância e a necessidade de continuar realizando um trabalho em rede, pautar essa temática do tráfico humano nos diversos espaços onde as lideranças eclesiais estão inseridas”.

Este encontro deu a oportunidade de “mergulhar em um mar de pessoas que praticam a mesma luta em seus respetivos países”, enfatizou Frei Xavier Plassat, da Comissão Pastoral da Terra – CPT, que há anos lançou uma campanha nacional contra trabalho escravo, chamada “De olho aberto para não virar escravo”. O missionário dominicano de origem francês, no Brasil desde 1989, sublinhou “a importância de ver os pontos de vista, a maneira de abordar e refletir a partir desse documento que o Vaticano publicou, de orientações sobre o combate ao tráfico de pessoas e a escravidão moderna, numa dimensão que não se limita a uma mera acolhida caridosa das vítimas, mas que busca construir uma resposta mesmo política, estrutural, indo às causas do problema”.

Gabriela Bottani, coordenadora durante cinco anos da Rede Mundial da Vida Consagrada contra o Tráfico de Pessoas, Talitha Kum, também insistiu na presença da vida religiosa como um elemento importante, porque entre os participantes, “a maioria são membros da redes Talitha Kum no mundo”. A religiosa enfatizou que “nossa presença é importante porque estamos aqui aquelas que estamos em contato com as vítimas, partilhando a vida nos bairros onde os traficantes vem reclutando as pessoas para serem exploradas”.

Não podemos ignorar, como reconhecido por Alberto Ares, que a realidade da migração na Espanha e na Europa é complexo, como é no resto do mundo. O jesuíta sublinha a realidade das fronteiras e do Mediterrâneo, “com muitas pessoas que estão sofrendo e tentando alcançar o nosso continente”. O Padre Ares insiste na necessidade de refletir sobre a integração, porque “a Espanha é uma sociedade diversificada, onde vivem mais de seis milhões de pessoas que têm chegado em nossa sociedade nos últimos 15 ou 20 anos”. Isso o leva a afirmar que “não somos apenas uma sociedade de acolhimento, mas uma sociedade que tem que ver como gerir sua diversidade e integração”.

Neste trabalho, o jesuíta enfatiza que “a Igreja ocupa um papel muito especial neste campo, e durante anos esteve muito comprometida, seguindo o Papa Francisco, em toda a realidade da migração, do abrigo e das pessoas deslocadas”. Neste particular, na Espanha, existe a Rede Migrantes com Direitos, onde fazem parte Caritas Espanhola, Justiça e Paz, a Conferência Episcopal e CONFER, a Conferência dos Religiosos e Religiosa da Espanha, que “está fazendo um trabalho muito forte e de compromisso, tanto na acolhida, como na conscientização e incidência, trabalhando para a integração de migrantes e refugiados na Espanha”.

Este é um compromisso que, segundo Gabriela Bottani, “que temos que implementar, crescer nesse compromisso, porque embora na sociedade civil e na Igreja esteja aumentando a conscientização, o compromisso, do outro lado, o tráfico continua sendo uma das maiores fontes de violência e violação dos direitos humanos, e vem aumentando no mundo inteiro”. Isso é algo que também destaca Rose Bertoldo, ressaltando que durante a conferência, após cada palestra, foram sugeridas diversas ações pastorais, como a criação das comissões de enfrentamento ao tráfico de pessoas nas conferencias nacionais dos bispos, a necessidade do clero, da vida religiosa para que tenham um olhar voltado para essa realidade e possam fazer um trabalho de incidência política nas paróquias, nas comunidades, aonde estão presentes. Tudo isto é apoiado, segundo a religiosa, no chamado que o Papa Francisco tem feito, em nível mundial, para que a Igreja se comprometa com ações bem concretas de enfrentamento ao tráfico de pessoas.

Esta dimensão do tráfico assume uma importância especial na Amazônia, que está imersa no processo sinodal, “justamente porque representa um grande desafio para a Igreja na Amazônia, dadas suas fronteiras, dada a sua realidade geopolítica, a sua relação com os países vizinhos e, de maneira especial, a vulnerabilidade que nós apresentamos enquanto região diante da atuação das redes internacionais de tráfico de pessoas”, segundo Márcia de Oliveira. A Assessora do Sínodo para a Amazônia insiste, de maneira especial, “em duas preocupações eminentes, que é em relação com as mulheres e crianças, e a estreita vinculação desse delito internacional com outros crimes internacionais, como o tráfico de drogas, os crimes ambientais, relacionados de forma especial aos garimpos irregulares, às madeireiras, e outras modalidades de exploração das questões ambientais na Amazônia, que vinculam também o tráfico de pessoas, de maneira especial as mulheres, para fins de exploração sexual comercial”.

A partir desta perspectiva sinodal, Marcia de Oliveira, disse que “me parece que esse é um ponto importante que o Sínodo tem trabalhado pouco, e a gente precisa aprofundar um pouco mais esse tema, que aprece muito facilmente nas escutas, e precisa ser aprofundado de acordo com a sua relevância”. Nessa mesma dimensão, Rose Betoldo, assessora da REPAM-Brasil no Regional Norte 1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), destaca o trabalho do eixos fronteiras da Rede Eclesial Pan-Amazônia, pois tudo isso “vem a fortalecer o trabalho que a gente já vem realizando no Brasil, e de modo especial na Igreja da Pan-Amazônia, nesse processo da construção sinodal”.

O último momento da Conferência foi a audiência com o Papa Francisco, que lhes agradeceu por seu trabalho, com iniciativas que são “dignas de admiração” e encorajou-os a continuar a luta contra este flagelo social, desde as palavras de Jesus no Evangelho de João: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. Uma das coisas que impedem que todos tenham vida em abundância, nas palavras do Papa Francisco, é o tráfico de seres humanos, que “fere gravemente a humanidade no seu conjunto, dilacerando a família humana e o Corpo de Cristo”, e que deve ser considerado um “crime contra a humanidade”, uma “mercantilização da pessoa humana”.Este é um trabalho arriscado e anônimo, inclusive “¡É arriscada dentro da congregação porque eles olham mal para você!”, afirmava o Papa Francisco, sendo o combate do tráfico humano um campo em que “muito tem sido feito, mas muito ainda resta por fazer “, insistindo na necessidade de caminhar juntos, de trabalhar em rede, não só dentro da Igreja, mas em colaboração com diferentes “atores políticos e sociais… com instituições e outras organizações da sociedade civil vai garantir resultados mais incisivos e duradouros”.

Fonte: cebsdobrasil