Cultura Amazônida

Trajetória de personalidades negras do Amazonas pode ser acessada em site

Trajetória de personalidades negras do Amazonas pode ser acessada em site

As histórias dos quinze protagonistas que compõem o projeto “Direito à Memória” já estão disponíveis no site www.direitoamemoria.com. O “Direito à Memória”, um projeto de pesquisa artística de multilinguagem com foco nas figuras negras importantes para o Amazonas, traz, ainda, vídeos com narrativas poéticas sobre esses personagens. Escrito por Maria do Rio Negro e executado por Keila Serruya Sankofa, o projeto conta também com ilustrações e fotografias.

“Entendemos que há muito apagamento de pessoas negras da nossa história, então se há muitas figuras importantes que estão apagadas, nada mais interessante que ter um site para oferecer informações sobre pessoas que não têm reconhecimento, mas que têm ações sociais que fazem toda diferença nesse estado. A web é um lugar que a gente pode construir diálogo, e no qual podemos alcançar mais pessoas e, consequentemente, conhecer mais personagens nesse processo”, destaca Keila Serruya, idealizadora da ação.

Os vídeos foram gravados há um ano, e fazem parte da terceira etapa do projeto, composto pela exposição dos registros, em foto e vídeo, além das ocupações realizadas nos ônibus coletivos das zonas Norte e Leste. A ação nos ônibus ocorreu uma semana antes da Consciência Negra e percorreu bairros periféricos da cidade de Manaus. Os ônibus, segundo Keila Serruya, foram transformados em galeria de arte. 30 estandartes com imagens de figuras negras importantes para o estado do Amazonas foram fixados nos coletivos.

“O objetivo da iniciativa é reivindicar memória, marcar território e construir um novo olhar não embranquecido sobre todos os viventes desse lugar. Nada mais poderoso do que priorizar o transporte público para propor diálogo. Agora as imagens em foto e vídeo e a história desses protagonistas também podem ser acessadas no site”, reforça Keila.

O projeto “Direito à Memória” é composto e executado juntamente com uma equipe formada por pessoas negras e indígenas, realizado pelo Grupo Picolé da Massa, com o apoio da Prefeitura de Manaus, por meio do Edital Conexões Culturais, Pedra de Fogo Produções, Coletivo Ponta de Lança e Fita Crepe Produções. A iniciativa tem, também, o apoio mais que necessário da historiadora Patrícia Melo e do ativista Juarez Júnior, personalidades importantes durante todas as fases desse processo.

Sobre os personagens
Ao todo, quinze mobilizadores são homenageados nesta atividade, todos os protagonistas foram estudados e tiveram suas histórias recontadas a partir das suas narrativas absorvidas nesse processo. Conheça mais dessas pessoas no site www.direitoamemoria.com

Alguns dos homenageados

Marly Paixão – A história de Marly Paixão é marcada pelo pioneirismo. Ela fundou o primeiro salão de tranças afro do Amazonas, nos anos 80 (que hoje está nas mãos de sua filha Jeinnylis Paixão), e também é referência como psicóloga negra na cidade.

DJ MC Fino – Aprendiz e educador, mais aprendiz do que educador, pois para ensinar é preciso primeiro aprender, este é DJ MC Fino. Longe do estereótipo de brutalidade imposta aos homens negros, é um homem sensível e paciente, gerando juventudes potentes.

Mirna Lysa – É uma mulher negra, trans e vitoriosa, que passou dos 30 anos e isso precisa ser exaltado. Filha de imigrantes, Domingo Reis Campos e Inês Souza Sales, nascida em Manaus/AM, enfermeira, ativista dos direitos humanos, com foco em pessoas trans e pessoas vivendo e convivendo com HIV/AIDS, co-fundadora do coletivo ASSOTRAM – Associação de Travestis e Transexuais do Amazonas, e mãe de Gustavo Bernardo. Viveu a ditadura militar, uma época de muita repressão às mulheres trans.

Irmã Helena – A luta por terras e moradia é estritamente negra e indígena no Brasil, pois os indígenas tiveram as suas terras roubadas, e aos negros que foram escravizados aqui, foi negado por lei o direito às terras e, consequentemente, à moradia. Manaus teve uma figura importantíssima que esteve à frente da luta por moradia em muitos bairros na cidade. E se hoje muitas pessoas têm onde viver é graças às forças de Helena Augusta Walcott, popularmente conhecida como Irmã Helena, por sua vocação religiosa. Ela ainda está viva e lúcida, no auge dos seus 82 anos. Atuou ferrenhamente pela moradia de muitas famílias, chegando a sofrer perseguição policial, ao ponto de ter que sair do Amazonas por um tempo. Foi líder e coordenadora do Movimento dos Sem Teto, nos anos 70, 80 e 90.